Diretorio Espiritual

Escola Religiosa onde devem formar-se e educar-se todas as Irmãs do Instituto das “Filhas do Calvário”, para que animadas por um mesmo espírito e impelidas por ele se diferenciem em toda parte, agindo como se fossem uma só, vivendo uma mesma vida e produzindo os mesmos frutos por onde estiverem.

1. Os Estatutos das Filhas do Calvário baseiam-se somente no Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Seus preceitos e conselhos dirigem-se à observância dos deveres do cristão que são: cumprir em toda sua plenitude e guardar com toda fidelidade as obrigações que dimanam da sublime virtude da Caridade nestes princípios fundamentais da nossa sagrada Religião, “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmas”. Isto é, cumprir com perfeição o preceito imposto pelo mesmo Deus e amar-nos uns aos outros como Jesus Cristo nos amou.

2. Esta virtude da caridade, primeira e principal entre todas, segundo a expressão do Apostolo, “Maior autem eorum est Charitas”, obriga a todas as Filhas do Calvário a desprezar todas as coisas para Amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças, e ao próximo por Deus; de tal modo que esta caridade em ação deve ter para as Filhas do Calvário um fim primordial e absoluto que é o mesmo Deus e outro secundário e relativo que é o próximo; e por isso dois atos diferentes porém não diversos, um interno que nascendo do coração domina todo o ser sendo o motor de todas suas ações referindo tudo a Deus pelo amor; e outro fruto do primeiro que nascendo desse mesmo Amor Divino se traduz ao exterior manifestando-se em amor ao próximo, isto é, na prática da caridade.

3. A Filha do Calvário deve estar sempre unida a Deus por médio da oração, mortificação e todos os atos da vida interior, e ao mesmo tempo deve ser infatigável na vida ativa, abraçando a abnegação e o sacrifício dos atos de caridade, fazendo tudo por amor a esse Deus que é o único centro do seu coração.

4. Por isso são dois os caracteres que constituem essencialmente a vida das Filhas do Calvário: a meditação no retiro em que a alma aprende a vencer-se a ela mesma, a renunciar a tudo e a amar a Deus com perfeição, fortalecendo-se e exercitando-se em todos esses atos e na prática de todas as virtudes; e os atos externos da caridade em ação por meio dos quais consagra-se a Filha do Calvário ao serviço dos seus semelhantes, sendo estes atos emanação preciosa daquelas santas virtudes nas que anteriormente exercitou-se e que aprendeu ao pé do altar na sua comunicação com Deus e fruto daquela semente de virtudes que no santo retiro cultivou sua alma.

5. Deve a Mestra de Novicias se esforçar desde o inicio em arrancar do coração das jovens confiadas a seu cuidado todos os costumes, pensamentos, afeições e revoltas que trouxeram do mundo e aos poucos ir formando essas almas na escola da perfeição combatendo e destruindo seus afetos e inclinações más e semeando nelas a semente das virtudes nas que, por médio de provas mais ou menos fortes, segundo o espírito de suas novicias, deve ir exercitando todos os dias, até conseguir que suas almas alcancem este espírito que é o característico das Filhas do Calvário: renunciar e morrer a elas mesmas por amor a Deus; e amar e buscar o sofrimento como o amou e buscou nosso Divino Redentor.

6. Uma santa indiferença para todo, renunciar aos afetos de família, às adulações do mundo, ao amor à Pátria e vencer as repugnâncias naturais da natureza humana: esse deve ser o resultado prático de todos esses esforços e trabalhos. Quando a alma tiver já adquirido tão santas disposições, estará o terreno devidamente preparado para semear a santa semente da vida religiosa por médio dos sacrossantos votos, que são os preciosos elos da corrente que como os cravos da Cruz pregam nela à Filha do Calvário com o Esposo crucificado do seu coração.

7. O voto de obediência consiste nesse sacrifício heroico que é o distintivo da vida religiosa. Por medio dele damos morte ao nosso próprio juízo e vontade sujeitando-nos cegamente aos superiores e caminhando sobre as pegadas do nosso Divino Mestre, que sendo Homem Deus viveu sempre submisso e foi obediente até a morte e morte de Cruz.

8. Por isso, cada uma das Filhas do Calvário deve estar disposta com igual gosto e vontade a ir e ficar no lugar e cargo que lhe assinale a obediência, sem apegar seu coração a uma ou outra nação, a uma ou outra casa, a uma ou outra Superiora, a umas ou outras Irmãs.

9. Igualmente, deve ser para ela totalmente indiferente se dedicar ao ensino e educação das meninas, ao cuidado e serviço dos anciãos e enfermos, ou a procurar a conversão dos pecadores, pois sabe com certeza que em qualquer destes ministérios ao que se dedicar está cumprindo a vontade de Deus e tornando-se grata aos seus divinos olhos, assim deve estar contente em qualquer ramo da educação ou da caridade a que se dedicar, pois em qualquer um deles pode encontrar sua santificação e servir-lhe-á de escada para subir ao céu.

10. Este espírito de abnegação, sacrifício e santa indiferença, deve ser característico de todas as Filhas do Calvário, devendo trabalhar infatigavelmente até consegui-lo. Isso não é apenas altamente proveitoso e necessário para a boa ordem e governo do Instituto, mas gratifica a vida mesma das Irmãs, tornando-a fácil e agradável e evitando-lhes desgostos, contrariedades e sofrimentos.

11. O segundo voto é o de pobreza. Consiste nesse santo desinteresse pelo que renunciamos e desprezamos todas as coisas e riquezas domundo, desapegando delas nosso coração para abraçar uma vida simples, humilde e pobre, sem ter nada próprio, aceitando com alegria as privações e vivendo sempre nas mãos da Divina Providência, devendo ser a Santa Pobreza mais um distintivo das Filhas do Calvário.

12. Em nossas Santas Constituições já está explicado clara e suficientemente o modo com que as Filhas do Calvário devem observar e se sujeitar ao Santo Voto da Pobreza. Resta-nos agora nestas instruções acrescentar que de nada serviria às Irmãs ter uma vida pobre, privada de comodidades e ainda sujeita a privações e sacrifícios, se não abraçarem todas estas coisas com amor e verdadeiro espírito, mas seus corações continuarem apegados às mesmas coisas que renunciaram por motivo deste santo voto.

13. Todas minhas queridas filhas devem empenhar-se em aprofundar mais e mais em seus corações a virtude da humildade, procurando para si mesmas e para seu Instituto o mais pobre e desprezível aos olhos do mundo, que talvez seja o mais grande e agradável aos olhos de Deus. Assim seus colégios serão abertos preferencialmente para as classes operarias e necessitadas, sem reparar que esses sejam os menos produtivos e os que lhes proporcionam menos fama e satisfações.

14. Nunca devem invejar que outros Institutos tenham mais primazia e fama na sociedade, pois a Filha da Cruz, a imitação do seu Crucificado Esposo, não pode buscar no Calvário a satisfações e a gloria, mas a tribulação e o menosprezo do que se viu rodeado no Gólgota Sagrado Nosso Divino Redentor. Também para si mesmas procurarão e amarão o mais pobre e humilde, porque se assim não fizerem, sua vida que deve ser de privações e carências tornar-se-á dura e insuportável, perderiam todo o mérito ante os olhos de Deus e não estaria conforme com o espírito que é de abnegação e pobreza.

15. Esforçando-se em adquirir estas santas disposições e abrindo suas almas para que nelas reine a humildade e o amor, a mortificação e a privação, é como cumprirão fielmente com seu santo voto e tornar-se-ão dignas de que nelas se cumpra a promessa de Jesus Cristo que disse: “Felizes os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.

16. O terceiro voto da vida religiosa é o de castidade. Esta é a auréola mais formosa que pode brilhar na nossa cabeça; ela é o perfume da nossa alma, o tesouro do coração e a honra do estado religioso. Irmã do pudor e da modéstia, rodeia-nos de celestial encanto, e ao passar intata e limpa entre os espinhos deste mundo enganador e atravessar indiferente por todos os encantos dessa sociedade que quer seduzi-la, vencendo a natureza mesma na sua carreira, se enaltece a tal grau que o seu candor e grandeza e o próprio vencimento embriagam a alma de entusiasmo e cativam o coração de secreto encanto.

17. A Castidade é uma virtude sublime, filha do céu que eleva à criatura tornando-a quase igual aos anjos; ela foi o distintivo mais glorioso da Imaculada Mãe de Deus, atraindo pelo seu brilho e esplendor a mirada do Onipotente. As Filhas do Calvário se obrigam por voto a esta virtude heroica; mas não devem apenas guarda-la na sua totalidade por causa do seu estado, mas infundi-la dentro de suas próprias almas, de tal modo que puros e castos sejam todos seus pensamentos, puras e castas todas suas palavras, puras e castas todas suas ações.

18. Por isso mesmo estão obrigadas todas as Irmãs a exercer a mais estrita vigilância sobre elas mesmas e tudo ao seu redor, não devendo por nenhum motivo deter-se em lembranças do passado da sua vida, nem ter bate-papos, desejos nem ambições, contrarias a esta virtude angelical, pois a pureza é como um espelho muito limpo que fica embaçado com a menor coisa. A esposa do Cordeiro Imaculado deve afastar dela até a mais pequena nodoa que possa torná-la indigna do seu celestial Esposo.

19. Tudo quanto se possa dizer sobre esta matéria é pouco para exortar às Irmãs que sejam cuidadosas e delicadas até o extremo em adquirir e praticar a virtude da pureza e evitar tudo o que é contrario a ela, para poder assim cumprir da melhor forma possível com o santo voto da castidade que tanto as eleva e as torna aceitas aos olhos de Deus.

20. Porém, não devem por isso serem ridículas e puritanas no seu relacionamento com as pessoas do mundo, pois a sociabilidade e a boa educação nunca estão brigadas com a virtude. A consciência é um juiz muito severo que de fato nos faz compreender quais são as coisas que estão permitidas para nós e quais as que devemos evitar.

21. Nas santas Constituições e no Diretório ou normas de conduta está suficientemente explicado tudo o que se relaciona com este ponto e, apenas me resta lembrar encarecidamente a minhas amadas filhas, que não reparem nas aparências externas mas na limpeza da alma e na retidão do coração, pois é aí onde deve radicar especialmente a castidade e a pureza para que elas sejam aceitas e agradáveis aos olhos de Deus.

22. Mesmo não estando obrigadas por voto à clausura as Filhas do Calvário devem, não obstante, observá-la como todas as instituições monásticas. Porém nelas, conforme já está explicado, não é absoluta e sim relativa, devido à vida mista à que estão consagradas. Isso as impulsiona a se fortalecer duplamente na virtude e a redobrar sua vigilância, pois sendo sua clausura apenas relativa, estão expostas a maiores ocasiões e perigos e tem que lutar contra mais tentações e dificuldades.

23. A clausura é a chave valiosa que ocultando do mundo as religiosas consagradas à vida contemplativa, esconde-as para sempre dos olhares dos homens e afasta-as de todas as ocasiões e perigos; são estas como soldados aquartelados que estão menos expostos aos azares da guerra.

24. A Filha do Calvário, pelo contrario, tendo que estar por razão do seu ministério em contato continuo com a sociedade e o mundo, deve qual soldado que se encontra no meio do calor do combate, lutar corajosamente e evitar sabiamente o perigo, mas sem fugir covardemente dele; saber com habilidade evitar as ciladas e vencer o inimigo. As Filhas do Calvário procurarão viver no meio das lutas do mundo e das paixões, esquivando as ameaças e resguardando-se sob o baluarte da clausura, que não deve consistir para elas nos altos muros do seu convento, mas na muralha inexpugnável da sua vontade, que deve afasta-las sempre do mal, buscando em Deus a força e a graça para triunfar de todos seus inimigos.

25. A clausura que todas as Irmãs devem procurar adquirir é: a clausura do coração, morto para o mundo e vivo só para Deus; a clausura dos sentidos, dominados sempre pela mortificação, a presença divina e a clausura da vontade, não fugindo do combate, mas rejeitando com coragem e disposição tudo o que as afaste do bem e as induza ao mal. Nesta escola devem se exercitar para poder, tranquilas, consagrar-se ao cumprimento do seu sagrado ministério com santa confiança e serenidade, pois quem tem sua vontade unida com Deus e nele se apoia e descansa, nada tem que temer e pode dizer com toda verdade com o Apostolo: “Tudo posso naquele que me conforta”.

26. A segunda promessa especial que formulam as Filhas do Calvário ao pronunciar seus santos votos é a da Caridade. Esta virtude sublime, raiz e fonte de todas as virtudes, e que é o suporte sobre o qual se sustentam estes Santos Estatutos, também não obriga como voto às Irmãs, pois estariam expostas a cometer cada dia grande numero de faltas contra ela, uma vez que a caridade é “o Amor perfeito a Deus e o amor perfeito ao próximo”. Porém estão obrigadas a ela na prática essencial e material dessa virtude, e pelo mesmo, devem procurar na sua alma a maior união com Deus por meio do amor, vivendo constantemente na sua presença divina e tendo como fim de todas suas ações agradá-Lo e servi-Lo.

27. Devem igualmente evitar com esmerado cuidado todo pensamento ou juízo, todo bate-papo ou palavra e toda ação que de alguma forma possa ferir ao próximo, ferindo a caridade. Além disso, para cumprir com a parte essencial desta promessa, devem as Filhas do Calvário destacar-se sempre pela união continua com Deus, a paz e união fraterna entre elas mesmas e disposição para a abnegação e sacrifício para com os outros.

28. Para o cumprimento da parte prática da sua promessa, devem estar dispostas, sempre animadas pela virtude da caridade, para servir com santa indiferença qualquer estabelecimento de beneficência ou ministério de caridade ao qual as destine a obediência, superando toda apreensão, temor ou repugnância, assim como inclinação de caráter, dedicando-se com santa abnegação, guiadas pela voz dos Superiores, ao alivio dos mais necessitados e ao serviço da Humanidade.

29. Por ultimo, o cumprimento desta sagrada promessa, obriga às Filhas do Calvário a praticar e exercer a caridade em seus verdadeiros atos, amando as suas Irmãs, as religiosas, e aos seus semelhantes em geral, com esse amor puro e desinteressado como o Senhor nos manda que nos amemos uns aos outros, sem desejar para eles o que não queremos para nós mesmas, amando e considerando a todos como imagem de Deus.

30. Animadas com este pensamento, a vida ficará mais doce para elas e esforçar-se-ão na assistência a próximo, dedicando-lhe toda ternura e santo interesse pelo seu bem, tanto na ordem física como na moral e religiosa: cuidando aos enfermos, amparando os órfãos, ajudando e recolhendo os necessitados e desvalidos, convertendo os pecadores, instruindo os que menos sabem, educando e cuidando às crianças, formando e encaminhando os corações para Deus na escola da virtude e remediando todas as misérias e necessidades da Humanidade sob a arvore frondosa da Caridade, cuja raiz é Deus e cujo termo perde-se no coração do mesmo Deus.

31. Outro dos rasgos característicos das Filhas do Calvário que deve formar, por assim dizer, a essência do seu espírito, é o amor e devoção entusiasta e constante da Paixão e morte do Nosso Divino Redentor.

32. Ao escolher o nome, que entre todos distingue o nosso Instituto e o diferencia dos outros, é para que continuamente, ao pé da Cruz, se reúna um numero de almas que queiram acompanhar à Santa Vitima do Gólgota. Nesse lugar de tormentos onde ficou abandonado de todos os seus, estavam apenas tomando parte viva no seu sofrimento, sua dolorosa Mãe, o Apostolo Virgem, a pecadora Madalena e as piedosas mulheres. Com esses exemplos abnegados de amor e fidelidade devem se identificar as Filhas do Calvário, viver com seu mesmo espírito e como eles não se afastar nunca da Vítima Divina, não apartando jamais de sua mente o espetáculo sangrento da Paixão e morte do Redentor do Mundo. Por isso, como Apóstolos do sacrossanto sacrifício, devem trabalhar infatigáveis por estender e difundir por toda parte nas almas a devoção à Paixão e morte do Nosso Senhor Jesus Cristo.

33. Não pode inventar um sacrifício mais sublime, mais heroico e mais grandioso o coração de Deus, como o mistério incompreensível da Redenção; e não pode entender-se uma ingratidão mais monstruosa, mais infame e mais incompreensível, que a criminal indiferença com que tem correspondido a Humanidade a esse mistério admirável de misericórdia e amor.

34. Como uma gota d’água na imensidão do mar, é a Congregação das Filhas do Calvário na imensidão do mundo; mas é necessário que todas se esforcem em não participar dessa criminal ingratidão e indiferença que no meio do oceano de amarguras inunda o Coração do Cristo; ao ver tão mal correspondido e agradecido seu Sacrifício, apareça essa gota de gratidão e de amor no humilde Instituto das fieis Filhas, que querem acompanhá-lo em seus sofrimentos, proporcionando um pequeno consolo ao seu Divino Coração.

35. Por isso as Filhas do Calvário não devem buscar para si mesmas nem o prazer, nem a alegria, nem as satisfações, nem as comodidades da boa vida, pois isso não pode encontrar-se nunca ao pé da Cruz. Esta convicção deve levá-la gravada perpetua e profundamente em seu coração e assim seu espírito deve ser sempre de mortificação e sacrifício, formando-se nesta santa escola desde que ingressa no Instituto, permanecendo com esse mesmo espírito até a morte.

36. Muito ajudará a consegui-lo: meditar todos os dias algum dos passos da Paixão e morte do seu crucificado Esposo; ter sempre diante dos seus olhos seus sofrimentos e sua Cruz; propor-se imitá-lo em seus sofrimentos; e com amor, gratidão e sacrifício, suavizar suas penas e fazer com que no meio da universal ingratidão, encontre no seu coração algum balsamo e algum consolo.

37. Quando esteja de turno no oratório, especialmente durante as três horas de agonia em que a Vitima Divina do Gólgota esteve pendente na Cruz, deve à sua vez imolar-se em holocausto, como vitima de gratidão, de amor e de reparação, pela imensa e culpável ingratidão com que o mundo respondeu ao beneficio supremo da Redenção.

38. Que jamais estas três horas de agonia e especialmente as “três” da tarde, que foi a hora de sua morte, passem desapercebidas para nenhuma Filha do Calvário em qualquer lugar onde se encontre e qualquer seja a ocupação que tenha; pois o coração e o pensamento podem se elevar a Deus continuamente e estarem unidos com Ele, mesmo que o corpo esteja dedicado ao trabalho e esteja muito distante do templo. Sempre devem se esforçar por estarem unidas em espírito nessa hora suprema com seu Celestial Esposo, agonizante na Cruz que sacrificou sua vida para salvar a Humanidade.

39. Exorta-se de um modo especial às irmãs afortunadas que tenham a sorte de acompanhar misticamente em seus oratórios nestas três horas benditas ao Divino Redentor na sua agonia e morte, façam isso em nome de todas suas Irmãs em Religião e da Humanidade inteira, com o maior fervor e entusiasmo; oferecendo-se ao Senhor, como já foi dito, como vitimas de gratidão, expiação e amor, implorando para seu Instituto, para o coração dos pecadores e para o mundo inteiro, as torrentes do sangue do Redentor e as graças e bênçãos de Deus.

40. É natural que o nosso Instituto assuma também de coração a devoção do século, isto é, à devoção da Sagrada Eucaristia, cujo objetivo é diminuir os horríveis avanços da impiedade e do ateísmo e da imoralidade dos costumes em todas as suas modalidades. Por isso mesmo as Filhas do Calvário tornar-se-ão escravas e adoradoras perpetuas do Sagrado Coração de Jesus no Santíssimo Sacramento, meditando continuamente o amor que Jesus Cristo nos manifesta ao ficar prisioneiro em nossos altares, unindo esta devoção sublime aos dolorosos padecimentos do Redentor no Calvário.

41. Neste sentido, as Preladas nas suas respectivas casas e as Mestras de novicias nas delas, deverão se esforçar por manter sempre viva no coração de suas filhas a chama da santa devoção de que estamos falando, de tal modo que todas as Filhas do Calvário vivam a vida da Eucaristia, aprendendo ao pé do sacrário as virtudes que lhes são necessárias para lutar e vencer, e inflamadas nesta devoção possam inflamar os corações, neutralizando a criminal indiferença dos homens que tão cruelmente ofendem o coração de Deus.

42. Outro rasgo característico do espírito em que devem formar-se todas as Irmãs é a devoção doce, tenra e entusiasta à Virgem Santíssima, especialmente nas suas dores ao pé da Cruz. Como boas filhas devem tê-la sempre presente no interior da sua alma, amando-a, acompanhando-a em seus sofrimentos e imitando-a em suas virtudes, proporcionando-lhe assim algum consolo e conforto a seu coração maternal.

43. Ela deve ser o modelo que tenham continuamente diante dos olhos para seguir suas pegadas, o apoio que devem buscar sempre em suas aflições e a ancora misteriosa que deve alentar sua esperança em todas suas lutas e combates.

44. A imagem de Maria Dolorosa deve reinar continuamente em seus corações; a lembrança ou a memória de suas lagrimas e sofrimentos deve ocupar sempre seus pensamentos; e a invocação a esta Mãe da Dor é a que deve brotar continuamente dos seus lábios de tal modo, que cada Filha do Calvário seja como uma mensageira que anuncia por toda parte a devoção às dores de Maria; que elas façam compreender ao mundo que foi ao pé da Cruz onde ela se constituiu Mãe da Humanidade, ao receber como herança os homens, dos mesmos lábios do seu Filho moribundo, e que por isso, é na avocação das suas dores onde todos devem reconhecê-la como Mãe e oferecer-lhe as mais ferventes homenagens de gratidão e amor filial.

45. Formada a Filha do Calvário nesta santa escola de amor, abnegação, sacrifício e santo desprendimento de todo o humano, aspirando somente o divino, passará impassível por este mundo sem temer seus perigos e sofrimentos, derramando o bem por toda parte e levando com suas palavras, atos e exemplos, as almas para Deus.

46. Modelado seu coração neste tão precioso molde que, como dito anteriormente, deve formar as Filhas do Calvário, tendo já conseguido vencer-se a si mesmas, fugir da comodidade e de tudo quanto possa agradar suas paixões, buscando para si mesmas a cruz e o sacrifício por amor a Deus, terão adquirido o segredo misterioso para adoçar todos seus sofrimentos e penalidades, adquirindo essa santa indiferença que faz com que estejam sempre unidas à vontade divina, chegando assim alegrar-se nos mesmos sofrimentos e suportar tranquilas e serenas tudo quanto de bom e de ruim lhes possa acontecer.

47. Passar ao lado dos sofrimentos e das lagrimas como anjos de consolação, para aliviar ou remediar todos os infortúnios da vida e misérias da humanidade, produzirá em suas almas uma das satisfações mais doces e positivas que se possa experimentar na vida, como é a prática do bem e contribuir à felicidade dos outros.

48. Vivendo sempre ao pé da Cruz, regada com o sangue da Vítima Divina e as lagrimas da sua dolorosa Mãe, sentirão germinar na sua alma os preciosos frutos das virtudes cristãs e ao pensar que sua fidelidade e amor ao mistério da Redenção são uma gota de balsamo que suaviza as feridas e agonias do seu crucificado Esposo, abraçarão com entusiasmo a essa Cruz sacrossanta e tornarão doces seus sofrimentos, pois com eles podem dar uma pequena prova do seu amor Àquele que por nos amar deu-nos sua vida inteira.

49. Com tão belos sentimentos incrustados na sua alma, com tão santo amor gravado em seu coração e gloriando-se como Cristo na Cruz e no sofrimento, é como a Filha do Calvário cumprirá sua missão sobre a terra.

50. Este é o espírito que deve animar sua vida inteira. Vivendo com o corpo na terra e o espírito e o coração no céu, conseguirão serem aceitas aos olhos de Deus e ouvir na hora da morte as doces palavras: “Entra, serva boa e fiel, porque fostes fiel no pouco eu te constituirei sobre o muito, entra a participar do gozo do teu Senhor”, coroando no Céu sua fronte com a preciosa coroa prometida a todos os que perseverarem até o fim.

Mª Ernestina Larráinzar
Fundadora das
“Missionárias Filhas do Calvário”
Havana, Ano de 1921.

 

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